São José do Rio Pardo, domingo, 5 de setembro de 2010
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Subindo para o Vale
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João Carlos Possendoro
 

                                           

 

           Qualquer discrepância não é mera casualidade. Na realidade, o Vale fica em uma das partes altas da cidade. Quem deu nome ao bairro faltou à aula de geografia. É o bairro mais popular da cidade e faz jus a popularidade Surgiu da necessidade de moradias para uma grande parcela de trabalhadores. A maioria, oriundos do meio  rural e sem qualificação profissional.

         O Vale do Redentor, após a entrega dos primeiros núcleos, estando ainda em formação, foi rotulado e vítima de muitos preconceitos. Tudo de ruim ( furto, roubo, droga) que ocorria na cidade, era atribuído, pelos mais apressadinhos,  a  moradores do Vale.  Foi chamado, pejorativamente, de “Serra Pelada”.

        A fase de preconceitos parece ter ficado para trás. O Vale original é formado por quatro núcleos (I – II – III – IV). Na continuidade dele surgiu o Natal Merli (I – II), depois os Bairros Nova Esperança / Jardim São Bento. Estando prestes a ser entregue o Conjunto Habitacional (291 casas) Dionísio G. Barreto.

          Portanto, o que a população rio-pardense acostumou a chamar de Vale não é um bairro, mas sim, um conjunto deles. Quanto ao número de moradores, não há dados precisos. Nem o próprio IBGE sabe informar. Acredita-se que, com a entrega das novas moradias, serão mais de dez mil pessoas a residir nesta região da cidade

        O Vale é um “Um grande dormitório”: pessoas que moram, mas não trabalham nele. Uma gama de trabalhadores de diversas áreas. É um dos principais suportes da economia do município em quesitos básicos: grande fornecedor de mão de obra e grande consumidor de produtos.

        O bairro acorda cedo. Antes das cinco da manhã começa a movimentação. São os primeiros trabalhadores a deixarem suas casas. Seu destino, o meio rural. A cana, o café, a laranja, a cebola e outros produtos de nossa agricultura os aguardam em diversos pontos do município e da região. Uma mão de obra sem muita qualificação e barata, que talvez por isso, não tenha o tratamento que merece. É, porém, componente de fundamental importância para o bom andamento da safra agrícola.

      O dia, em época de inverno, nem clareou e os grupos vão se formando nas esquinas. Enquanto a condução não chega à prosa é grande. São ônibus (antigos, nem sempre bem conservados), vans, kombis e caminhonetas que os levarão a seus locais de trabalho.

        A segunda leva sai mais tarde, entre sete e oito horas. É a vez dos trabalhadores da indústria, comércio, funcionários públicos e prestadores (muitas domésticas) de serviço em geral. O meio de transporte é dividido. A maior parcela vai de ônibus, linha regular ou fornecidos pelos empregadores; parte dos moradores usam condução própria; outros tantos, provavelmente para economizar, vão a pé mesmo.

       O vai e vem de moradores somados a outras situações inerentes a sua localização, fazem com que a movimentação na única via que liga o bairro a região central, seja intensa, praticamente o dia inteiro.

       Em sentido mais amplo o Vale não tem vida própria. Seu comércio é muito fraco. Tem um enorme potencial ainda pouco explorado. O Centro Comercial é pequeno, sujo e obsoleto para a necessidade presente de seus moradores.

      Morar no Vale não é ruim, mas ainda falta muita coisa. É o principal reduto eleitoral da cidade. Os políticos fazem uso dele, mas dão muito pouco em troca. Armam seus palanques, fazem promessas, ganham a eleição, fazem a carreata da vitória e depois demoram uma eternidade para cumprir o mínimo prometido.

      Quando o bairro surgiu menos de 10% de seus moradores tinham veículos automotores. Hoje mais de 80% os possui. Só há uma via de entrada e saída no bairro. Uma segunda via foi prometido no Plano Diretor. Como nada do Plano saiu do papel, o Vale ficou sem sua via alternativa. O crescimento e desenvolvimento dos bairros não foram acompanhados pelos prestadores de serviços. Tanto a linha de ônibus como o PPA não atendem às necessidades reais dos moradores. A imensa praça do bairro é bem arborizada. Como não há policiamento, por motivos óbvios, é pouco aproveitada. A maior parte de moradores tem medo de frequentá-la. Mudanças na praça, há anos são prometidas, mas também, não saem do papel.

    O Cristo Redentor deu nome ao bairro, mas não é um monumento do bairro e sim da cidade. Considerá-lo cartão de visita, só se for admirando-o a distância. Quem vai visitá-lo tem uma visão belíssima da cidade, mas é só. O local não tem o mínimo de estrutura para receber visitantes.

         O complexo de bairros que forma o Redentor ressente-se de problema crônico, não previsto quando de sua formação.  Não se tem onde reunir. Não há um salão onde se possa fazer reuniões e discutir as necessidades de seus moradores.       

         O bairro conta com o Centro de Referência de Assistência Social - CRAS – que atende não só o Vale como também o Santo Antonio. Localizado em uma casa alugada na Rua Alexandre Machite 33. Inaugurado em fevereiro de 2005, atende a Política Nacional de Assistência Social, com o S.U.A.S –Sistema Único de Assistência Social.

         Lá funciona uma espécie de “Casa de Família” onde os problemas familiares são tratados como um todo e não individualmente. Profissionais especializados dão orientação buscando minimizar os problemas de famílias que recebem bolsa-família, muitas das quais, em situação de vulnerabilidade social. Crianças e jovens recebem tratamento especial. Tem-se aulas de artesanato e danças entre outras atividades. Pelo tamanho do atendimento o local é pequeno. Falta espaço.

         A escola estadual Laudelina é uma das coisas boas do bairro. Seus alunos quando saem para competir com alunos de outras escolas do mesmo nível não fazem feio. Ex- alunos da escola estão por ai trabalhando ou estudando para se tornar mão de obra especializada. Tem gente  na área de engenharia, da computação, do comércio e da industria, entre outras profissões.

         O Redentor é isso. Um complexo de bairros que se movimenta. Durante a semana é um ir e vir constante de moradores que, apesar das dificuldades e falta de apoio, vão à luta.   

         Nas manhãs de domingo, a movimentação na praça, próximo ao centro comercial, é intensa. É gente voltando da missa; é gente na busca da última mistura para o almoço; é o grupo de capoeira fazendo seu malabarismo; são crianças soltando pipas; são grupos de homens jogando malha ou truco protegidos pela sombra das árvores.

        Uma mistura de gente que dá um colorido especial a um bairro que muito contribui para o desenvolvimento do município.