- Como vai Dona Lulu?
- Eu vou levando a vida como Deus quer, seu Doutore.
De descendência portuguesa, ela foi criada com uma educação familiar que seguia os padrões rígidos imposta pelos de seus pais. Casou-se com o seu primeiro amor e o teve uma filha: Glorinha. Depois de uma convivência harmoniosa do casal por mais de três décadas, Dona Lulu foi surpreendida pela morte repentina do seu esposo e desde então procurou na religião a compreensão para o momento que passava. A filha preocupada passou acompanhá-la nas consultas médicas, e ao se despedir, não era raro, fazia as mesmas perguntas: Doutor, como está a saúde da mamãe? Ela está fazendo uso correto dos medicamentos ?...
Diante daquele zelo de sua filha, fiquei a imaginar:
- Deus lhe deixou um belo presente.
Com o passar do tempo a presença da filha já não era não tão freqüente. Não surpreso, observo Dona Lulu mostrar, mais uma vez, a sua devoção religiosa ao retirar crucifixo da sua bolsa.. Após beijá-lo, fez o nome do padre e voltou guardar carinhosamente o seu protetor na bolsa. Em seguida, passou a narrar os fatos que teria levado às mudanças no comportamento de sua filha:
- A minha filha se “enrabichou” pelo seu professor. Conhecido por Jojoca, ele é um senhor idoso, calvo, baixo e obeso. Eu tenho pedido que ela reflita sobre suas atitudes, mas os jovens se fazem de surdos aos apelos dos pais.
Num tom de voz em que demonstrava a sua apreensão, ela voltou a suspirar:
- Ah, se falecido estivesse vivo!
A descrição de Dona Lulu sobre o namorado de Glorinha me fez relembrar as primeiras aulas do internato de Ginecologia. O velho Mestre, com a sua voz pausada, dizia: “Meus alunos, vocês irão se deparar com a presença de um homem alto, apresentável, acompanhado de uma mulher pequena, assim como um homem de estatura baixa convivendo uma bela mulher bem mais alta do que ele. O segredo dessa convivência amorosa está embaixo lá, dizia ele apontando discretamente para a sua genitália”.
- Seria essa a “arma” do Jojoca, perguntei-me?
Enquanto vagava, ouço Dona Lulu dizer:
- Eu ando bastante angustiada com essa situação, seu Doutore.
- Nestas horas a paciência é a mais sábia das atitudes.
Ontem ela me surpreendeu mais uma vez ao dizer-me que havia se casada no cível, disse Dona Lulu chorosa.
. Embora espantado com a ousadia daquela jovem, procurei mostrar a Dona Lulu que aquele tipo de contrariedade não era tão incomum, pois esta nova geração tem uma percepção diferente dos valores que temos dificuldade em assimilar.
Ao se despedir, aparentemente resignada, ela disse;
- Que o senhor tenha muitos anos de vida para dar o conforto que suas pacientes...
Um certo dia a minha secretária notificou-me a presença de Glorinha na sala de espera. Ao atendê-la ela apresentou o seu esposo, um senhor que tinha as aparências descritas pela sua mãe.
- O Jojoca deseja falar com o senhor.
- Estou pronto para ouvi-lo.
Exteriorizando a sua ansiedade, ele disse:
- Eu gostaria de ter uma conversa a dois.
Pedi licença a sua jovem esposa e o levei para uma outra sala, assim ele poderia expor provavelmente os motivos da sua intranqüilidade. Depois de dizer que sua esposa não conseguia engravidar, procurei convencê-lo de que a medicina apresentava um avanço extraordinário no campo da fertilidade, assim a ciência médica estaria pronta a ajudá-los. Eu estava consciente de que todo queixoso sob o fardo da emoção nem sempre diz a verdade, então lhe fiz uma observação que achava importante.- Você só poderá ter um final feliz desde que não cerceie a espontaneidade da sua esposa, e passe a freqüentar lugares onde os jovens se reúnam com mais freqüência, assim os empecilhos tendem a desaparecer, uma vez que ela não terá a percepção de que o tempo tão precioso de sua vida foi perdido.
Ao me despedir lhes desejei que seus sonhos se transformassem numa realidade mais breve possível.
Passado algum temp, a minha secretária comunicou-me que o esposo de Glorinha estava na sala de espera. Quando chegou a vez de atendê-lo, ele foi explicito que a sua presença não tinha relação médica. Em seguida, perguntou-me:
- O senhor não lê jornal?
Embora um tanto preocupado, com o seu questionamento, demonstrei tranqüilidade ao responder:
- É um hábito que conservo todas as manhãs.
Ele retirou da sua pasta um jornal que tinha a seguinte manchete de primeira página: “Motel da Barra foi assaltado e seus hospedes sofreram humilhações”.
Pressentindo o constrangimento que o casal teria passado, exclamei:
- Não vai me dizer que os fora da lei interromperam o momento prazeroso do casal?
- Algo de mais grave aconteceu, Doutor. Os bandidos, portando metralhadoras, colocaram os hóspedes do motel nus, de costas para corredor interno, com os braços elevados e as mãos postadas na parede. Um deles teve a ousadia de passar a mão na minha bunda e me chamar de velho safado, por estar abusando de uma jovem. Desde então Glorinha não deseja mais fazer amor comigo.
- Era tudo que não poderia ter acontecido
Procurando algo que pudesse levar um pouco de paz àquele senhor, disse:
- Eu acho que, nesse momento, um hotel de campo seria indicado para que o casal pudesse reencontrar a paz.
Esperançoso, observei o Jojoca com um sorriso amável ao se despedir.
No final da semana seguinte, quando lia o jornal deparei-me com uma notícia que parecia um pesadelo: “Professor morre de mal súbito ao lado da jovem esposa num hotel de campo”. A reportagem vinha acompanhada dos nomes das pessoas envolvidas naquele trágico acontecimento. Aquele fato inesperado iria mexer com a minha cabeça por alguns dias, mas, com o passar do tempo, procurei me convencer de que Jojoca estaria no Céu, afinal o seu último suspiro deveria ter ocorrido num sublime momento.
Num dia tranqüilo, a minha secretária se aproximou e, demonstrando estar apreensiva, murmurou:.
- Doutor, a Dona Lulu, Glorinha e um jovem esperam serem atendidos pelo senhor.
Quando eles entraram na minha sala, observei que Dona Lulu não tirava os olhos daquele jovem. Enquanto imaginava qual seria o assunto que eles iriam abordar, fui surpreendido ao ouvir Glorinha dizer, apontando o dedo para aquele jovem:
- Ele é o namorado da mamãe.
Diante daquelas palavras, comecei a refletir o que teria acontecido com aquela senhora, com quem tive uma relação médico-paciente por quase quatro décadas. Em nenhum momento lembrava ou havia percebido que ela havia se queixado do seu relacionamento afetivo. Estaria ela desejosa de reencontrar um novo amor? Só o tempo seria capaz de mostrar se “as asas daquele vôo” seriam suficiente fortes para que para ela pudesse ter um final feliz...
Luiz Fernando Panico
Ginecologista/Obstetra
Lfpanico@uol.com.br
Agradecimentos aos colegas amigos e jornalistas.
Ao ex.mo Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, Ex.ma governadora do Rio Grande do Norte, Wilma de Faria, Acadêmico Helio Jaguaribe de Mattos. Ao Ministro da Cultura e o Presidente Fundação da Biblioteca Nacional pelo convite datado de 13/08/2009 para cerimônia da abertura da exposição: “Euclides da Cunha. Uma poética do espaço brasileiro”.
Por questão de viagem não pude conviver com esse sublime momento. Na minha família materna, aprendemos a admirar Euclides da Cunha. Oswaldo Galotti, tio materno, considerado o General Euclidiano do Brasil enfatizava aos seus sobrinhos a importância da obra “Os Sertões”, inserida pelos estudiosos entre as cem mais importantes do mundo de todos os tempos. Euclides da Cunha retratou com muita sensibilidade a vida do nordestino . Oswaldo Galotti conseguiu levar os restos mortais de Euclides da Cunha de Cantagalo para São José do Rio Pardo (S.P), onde no mês de agosto, se comemora a semana de Euclidiana. Seu Mausoléu está à margem do Rio Pardo, onde o engenheiro construiu a ponte sobre Rio Pardo e o escritor escreveu Os Sertões. O acesso à vida da obra deste grande brasileiro poderá ser visto e acompanhado no site www.oswaldogalotti.com.br.