O livro “Euclidianos e Conselheiristas: Um Quarteto de Notáveis” registra o debate, realizado em 1986, entre notáveis da cultura brasileira sobre a vida e a obra de Euclides da Cunha, autor do monumental Os sertões. Com trajetórias tão distintas quanto brilhantes, Antonio Houaiss, Franklin de Oliveira, José Calasans e Oswaldo Galotti oferecem aos leitores suas contribuições de inestimável valor aos estudos do grande escritor brasileiro. “Todos eles euclidianos eméritos, de dedicação de vida inteira, defendiam posições no mínimo dessemelhantes, quando não opostas”, explica Walnice Nogueira Galvão, coordenadora do encontro que também contou com a participação de José Carlos Garbuglio e Valentim Facioli.
Desse confronto de ideias nascem afirmações memoráveis: “Quem lê Euclides da Cunha, desde o primeiro momento vê que há dois Brasis: um inclemente, e outro vítima das inclemências”, afirma Antonio Houaiss. Para Franklin de Oliveira, Euclides “compõe ‘Os Sertões como um compositor comporia uma sinfonia. Não há coisa fora do lugar. Até aquilo que parece repetição, não é: cumpre uma função artística”. José Calasans vê Antônio Conselheiro como “vítima das contradições do Euclides: o Conselheiro fica preso no que eu chamo ‘a gaiola de ouro de Os sertões’”. Já Oswaldo Galotti ressalta um aspecto da construção da obra: “A linguagem, para Euclides, era a conscientização da realidade. [...] Por isso é que nós dissemos, no início, que Euclides tinha uma determinada genialidade”.
Em um aspecto, no entanto, o quarteto de notáveis está de pleno acordo: é fundamental que Euclides da Cunha e “Os Sertões estejam sempre em pauta no cenário cultural brasileiro, e a publicação de Euclidianos e conselheiristas soma-se aos esforços nesse sentido.
A organizadora
Walnice Nogueira Galvão é professora de Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo. Tem 32 livros publicados, dos quais 12 sobre Euclides da Cunha e a Guerra de Canudos, sendo o mais recente “Euclidiana – Ensaios sobre Euclides da Cunha” (Companhia das Letras, 2009). Outros títulos: “As Formas do Falso” (Perspectiva, 1986, 3ª. ed.), “A Donzela-Guerreira” (Senac, 1997), “Desconversa” (Ed. da UFRJ, 1998), “Le Carnaval de Rio” (Paris, Chandeigne, 2000), “O Tapete Afegão” (Lazúli, 2006) e “Mínima Mímica – Ensaios sobre Guimarães Rosa” (Companhia das Letras, 2008 - Prêmio da Biblioteca Nacional).
A editora
Preservar a memória do país e propor novos debates. Recuperar momentos de nosso passado e antecipar temas que serão importantes em nosso futuro. É com esses objetivos que desde 1998 a Terceiro Nome edita livros de ficção, história, fotografia, meio-ambiente, arte, antropologia, teatro e outros temas relacionados ao Brasil e suas raízes, problemas e encantos.
Entre seus destaques, estão livros com fotos e ilustrações resultantes de pesquisas em arquivos históricos ou produzidas especialmente para suas edições por artistas de renome. Fruto de enorme cuidado gráfico e editorial, em 2008 a Terceiro Nome obteve cinco indicações ao Prêmio Jabuti e, em 2009, esteve entre as finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura.
Os debatedores
Antonio Houaiss (1915-1999) foi filólogo, linguista e editor de enciclopédias. Em crítica literária e filologia, deixou trabalhos sobre Lima Barreto, Machado de Assis, Gonçalves Dias, Augusto dos Anjos, Carlos Drummond de Andrade. É autor de “A Crise de Nossa Língua de Cultura” (Tempo Brasileiro, 1983), “O Português no Brasil” (Unibrad/Unesco, 1985), “O Que é Língua?” (Brasiliense, 1990) e “A Nova Ortografia da Língua Portuguesa” (Ática, 1991), entre outros.
Franklin de Oliveira (1916-2000), jornalista, trabalhou em periódicos como “O Cruzeiro”, “Correio da Manhã”, “O Globo” e “IstoÉ”, dividindo-se entre o editorialismo e a critica literária. Consagrou inúmeros ensaios e artigos a Euclides da Cunha, e é autor de “Euclides – A Espada e a Letra” (Paz e Terra, 1983). Recebeu o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto da obra, em 1982. É autor de “A Fantasia Exata” (Zahar, 1959), “Morte da Memória Nacional” (Civilização Brasileira, 1967) e “Literatura e Civilização” (Difel, 1978), entre outros.
José Calasans (1915-2001), estudioso da Guerra de Canudos, dedicou sua vida ao tema. É autor da tese de livre-docência “O Ciclo Folclórico do Bom Jesus Conselheiro” (1950) e de trabalhos fundamentais, como “Canudos Não Euclidiano”, “Aparecimento e Prisão de um Messias”, “O Séquito de Antonio Conselheiro”, “Canudos – Origem e Desenvolvimento de um Arraial Messiânico” e “Antonio Conselheiro, Construtor de Igrejas e Cemitérios”.
Oswaldo Galotti (1911-2001), médico, foi, durante cerca de cinquenta anos, o dirigente da Semana Euclidiana, criada em 1938 e anualmente realizada em São José do Rio Pardo. Conseguiu em 1946 o tombamento da residência em que Euclides viveu, onde hoje se instalam a biblioteca e o arquivo da Casa de Cultura Euclides da Cunha. Obteve em 1982 o traslado dos despojos de Euclides e de seu filho do Rio de Janeiro para o mausoléu implantado à beira do Rio Pardo, junto à ponte reconstruída pelo escritor e ao barracão de zinco de onde dirigia os trabalhos de engenharia enquanto redigia “Os Sertões”.
SERVIÇO
O livro “Euclidianos e Conselheiristas: Um Quarteto de Notáveis”, brochura, 120 páginas (R$ 29,00) está à venda nas melhores livrarias ou pelo site www.terceironome.com.br