São José do Rio Pardo, quarta-feira, 8 de setembro de 2010
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A trajetória de Euclides da Cunha
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Blo do Portugues
 

 Há 100 anos o Brasil perdia um dos maiores nomes de sua literatura.

 Engenheiro, escritor e ensaísta brasileiro, Euclides Rodrigues da Cunha nasceu na fazenda Saudade, no arraial de Santa Rita do Rio Negro (hoje Euclidelândia), município de Cantagalo, província do Rio de Janeiro, em 20 de janeiro de 1866.

Órfão de pais desde os três anos de idade, foi educado pelas tias no estado da Bahia. Frequentou conceituados colégios fluminenses até ingressar na Escola Politécnica e, um ano depois, na Escola Militar da Praia Vermelha, local de propagação de ideias positivistas e evolucionistas.

Naquela época, Euclides já demonstrava ser idealista e audacioso. Ao tomar conhecimento de que, mesmo com boas notas, não seria promovido devido aos cortes no orçamento do governo, planejou com outros colegas um protesto para o dia da revista do ministro da Guerra na Escola Militar. Indignado com a injustiça que sofrera, Euclides não desistiu como os demais e foi o único que saiu da formação e atirou ao chão o sabre, cobrando do ministro uma resposta para a política de promoção do exército. Na ocasião, supostamente, bradou as seguintes palavras:

“Senhores! É odioso que se pretenda obrigar uma mocidade republicana e livre a prestar reverência a um lacaio da monarquia!”

Tal atitude levou-o a ser julgado pelo Conselho de Disciplina e, posteriormente, desligado do exército. Com esse episódio, ele ganhou notoriedade e deixou claro que não estaria subordinado a nenhuma hierarquia ou forma de poder que fugisse aos seus preceitos sociais e políticos. Após ter participado ativamente da propaganda republicana no jornal O Estado de São Paulo, foi reintegrado ao exército e promovido. Só desistiu da carreira militar para dedicar-se à engenharia civil.

Audacioso, incorruptível e idealista, Euclides da Cunha era um ardoroso republicano, defensor da ciência como parâmetro e guia para uma sociedade mais igualitária e inclusiva. Quando eclodiu a Guerra de Canudos, escreveu dois artigos intitulados A nossa Vendeia, uma alusão à resistência dos camponeses católicos e monarquistas contra o avanço da Revolução Francesa em 1793. Euclides tomou esse fato histórico como referência para a compreensão do fenômeno de Canudos. Influenciado pelos ideais republicanos da época, pelas ideias positivistas e evolucionistas, ele considerava que o movimento de Antônio Conselheiro tinha a pretensão de restaurar a monarquia - visão essa que mudou radicalmente após presenciar o massacre em Canudos.

Indicado para cobrir a Guerra de Canudos como correspondente do jornal O Estado de São Paulo, Euclides viajou para lá e presenciou a luta do exército contra os seguidores de Antônio Conselheiro. Enquanto esteve em Salvador, analisou todos os aspectos geográficos, botânicos e zoológicos daquela região, assim como os antecedentes sociológicos do conflito.

Ao terminar a missão de acompanhar e noticiar o desmedido conflito sertanejo, Euclides foi chamado para um novo desafio em São José do Rio Pardo, no interior de São Paulo: reconstruir uma ponte sobre o Rio Pardo. Durante os três anos em que morou na cidade, passou boa parte dos dias supervisionando os operários. Mas foi em um barracão de sarrafo e de zinco, ao lado do canteiro de obras, que Euclides da Cunha dedicou boa parte de seus esforços para escrever seu primeiro e único livro: Os Sertões, uma epopeia que descreve com detalhes um Brasil ignorado, fora dos moldes litorâneos e totalmente alheio à vigência da belle époque. Um Brasil que refletia a verdadeira identidade do seu povo.  

A primeira edição de Os Sertões foi um sucesso instantâneo: vendeu seiscentos exemplares na primeira semana e mais de três mil cópias em um ano. Arrancou aplausos dos mais consagrados escritores e intelectuais da época. Machado de Assis passou a ser um verdadeiro admirador de Euclides da Cunha. José Veríssimo, Araripe Jr. e Silvio Romero enalteceram a obra por ser um estudo profundo da alma brasileira, da difícil identidade mal costurada pela história, devido ao processo formativo de uma cultura dualista que insistia em separar o litoral dos sertões.  

A obra resume a grande saga euclidiana de apresentar o Brasil aos brasileiros. Talvez seja esse o segredo da profunda sintonia entre o livro e seus leitores. Ao relatar os episódios da Guerra de Canudos, Euclides é tão envolvente que consegue transpor  em palavras um desejo intenso de vingar os massacrados pelo conflito. Chegou a ser consagrado por dar voz ao grito de revolta do sertão brasileiro e recebeu a alcunha de advogado dos sertanejos.

Após a publicação de Os Sertões, Euclides envolveu-se em uma série de atividades e de acontecimentos. Foi eleito membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Brasileira de Letras. Enviado pelo chanceler Barão do Rio Branco, chefiou um grupo brasileiro que se deslocou para a região Amazônica com o objetivo de fazer o reconhecimento hidrográfico e preparar um mapa da região do Alto Purus, na fronteira com o Peru.

Durante a expedição, a visão científica do engenheiro abriu novamente espaço para as questões sociais do povo brasileiro. Euclides não só analisou os aspectos geográficos da região, como também observou com olhos muito críticos a forma de exploração da borracha. Indignado com as condições precárias de trabalho dos seringueiros, chegou a fazer propostas concretas no sentido de mudar a lei a favor do trabalhador.

Após o longo período de estudos e de pesquisas na Amazônia, Euclides da Cunha voltou para casa no Rio de Janeiro e recebeu a fatídica notícia de que sua esposa Ana estava grávida do amante, Dilermando de Assis. Imbuído de um sentimento violento de ódio, Euclides foi encontrar Dilermando, um dos melhores atiradores do exército, para vingar com sangue a inconcebível traição. Atirou contra o militar, conseguindo apenas ferir Dilermando, que o matou em legítima defesa.

Assim, há cem anos, o Brasil perdeu um dos maiores escritores e intelectuais de sua literatura. A tragédia de que Euclides da Cunha foi vítima interrompeu precocemente a vida de um homem que assumiu a missão de retratar um Brasil desconhecido, carente de identidade e alvo de injustiças sociais.

Notícia da morte de Euclides da Cunha, publicada pelo Jornal do Brasil: segunda-feira, 16 de agosto de 1909

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Notícia da morte de Euclides da Cunha, publicada por O Malho, 1909, n° 362, p.11. 

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