São José do Rio Pardo, quarta-feira, 8 de setembro de 2010
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Euclides da Cunha – Suas relações com o príncipe d. Luiz
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Marco Antonio Leite Brandão
 

          

           O artigo com o título acima é de autoria de Octaviano da Costa Vieira, casado com Adélia da Cunha, irmã de Euclides da Cunha e residiram em São Carlos de 1901 a 1916. Foi publicado no “Correio de São Carlos” em 04 de abril de 1914.

 

            “(..) Escreve-nos o sr dr Octaviano Vieira:  a propósito das relações entre o pranteado Euclides da Cunha e o ilustre d. Luis de Orleans, ex-príncipe imperial do Brasil, comentários vagos surgiram ultimamente sobre as idéias políticas do grande escritor, cujo republicanismo jamais poderá ser suspeitado por quem quer que seja.

            Euclides foi sempre republicano e como republicano morreu , - talvez um tanto desiludido nos últimos tempos, mas nunca descrente do seu ideal de moço e patriota, confiante no futuro da democracia.

            A sua vida foi uma reta admirável. Tendo publicado ‘Os Sertões’, foi tal o ruidoso sucesso desse livro, que o nome do autor se tornou conhecido e admirado em todas as capitais brasileiras. E d. Luis de Orleans, moço inteligente e estudioso, dedicado de coração a todos os assuntos que interessar possa ao Brasil, alma aberta às desgraças e alegrias da pátria, lá mesmo na Europa, no seu recanto de pensador e intelectual pôde lê-lo e apreciar-lhe as belezas.

            Em princípios de1908 em viagem pelas repúblicas do Prata, o príncipe teve oportunidade de escrever uma carta a Euclides, manifestando-lhe toda a simpatia espiritual e dizendo-lhe, com fidalga expansão, quanto admirara o seu livro na síntese perfeita, rija e máscula,da campanha de Canudos e da estrutura viril do nosso sertanejo.

            Esse gesto de d. Luiz – espontâneo e só próprio de espíritos superiores – não podia deixar de atrair o desvanecimento natural do escritor de gênio, leal e sincero.

            Euclides respondeu com galhardia e muita sinceridade. Daí nasceram relações entre eles, pura relações intelectuais, que em nada entendiam com a política.

           Dois grandes corações magnânimos, duas almas fortes, cristalinamente depuradas, um ano exílio e outra nos sofrimentos e lutas intestinas da pátria, que ambos estremeciam, bem se podiam compreender e confraternizar, acima dos interesses terrenos da política, na esfera mais elevada e serena do pensamento e das idéias, através do livro e das cartas.

              Com a franqueza rude, que tanto o individualizava, escrevia Euclides a uma pessoa, em 15 de março de1908: ‘Todos vamos bem. Como novidade: recebi longa carta de d. Luis de Bragança, neto do Imperador, que ultimamente passou por aqui. É uma carta de compatriota inteligente e digno: e – é incrível ! – eu, velho republicano, fiquei contentíssimo de recebê-la. Está entre meus melhores autógrafos. Pelo menos é um patrício de valor e, como homem, digno de toda a estima. O seu ato, dirigindo-se, cavalheiramente, a um simples escritor, cativou-me, pela sua própria nobreza’.

          Não. Certo não oferecia ponto escuro nas suas convicções e crenças o homem que sempre em todas as etapas de sua existência útil e agitada,revelou independência e coragem em tudo.

      E a sua coragem nunca se desmentiu. Ainda em Junho de 1909, em carta íntima endereçada ao pai, tratando de concurso de lógica, a que se havia submetido no Ginásio Nacional, assim se expandia: ‘Ontem foi a última prova: argüição oral. Dizem todos que fui muito bem, apesar da violência do encontro pela divergência de idéias. Assim todas as minhas provas foram boas. Mas não tenho ilusões. Os pedidos em prol de entrar candidato foram tais, que não é possível ter eu uma colocação vantajosa. Porque tenho ainda vergonha, não quis que interviesse a influência naturalmente irresistível do barão do Rio Branco. Estimo-o e venero-o demais para abusar da consideração em que ele me tem. O julgamento será na próxima segunda-feira. Aguardo-o tranqüilo, perto de um resultado desfavorável.Resta-me a convicção de eu cumpri seriamente o dever. Estudei: estou senhor de toda a matéria – e certo seria mais feliz numa outra terra.

           Continuarei a lutar. Estas coisas fazem-me efeito de estriquinina; estimulam-me ainda mais.Não vacilarei. Não sei ainda o que farei.Mas sei ainda que hei de seguir – para adiante’.

           O caráter ereto e firme do saudoso escritor, que assim se revelava e se impunha, nas coisas ainda as mais íntimas, não era de molde a sofrer curvas pouco dignas, nem a tolerar sinuosidade mal disfarçada.

           Nas letras, na ciência, na política, nas emergências da profissão, em público ou na intimidade, só conhecia um caminho – o rumo da verdade.

          Engenheiro, só um traçado lhe sorria na vida: - o que segue em linha reta.

          Republicano foi e republicano morreu.

          S. Carlos, abril, 1914 (..)”