Na edição de 13 de julho de 1916 o “Correio de São Carlos” publica “Euclides da Cunha Filho” escrito por Oleno Vieira, sobrinho de Euclides da Cunha, filho de Octaviano da Costa Vieira e Adélia da Cunha Vieira:
“(..) Permitam-me os leitores do ‘Correio1 que eu abra um parêntesis de luto nas colunas tão despreocupadas do jornal. É uma homenagem pálida,quase um desabafo que presto à memória e Euclides da Cunha Filho, o infeliz rapaz tragicamente engolfado no sangue a que o impelira o aguilhão de sua vingança heróica.
Sou o menos autorizado para falar dessa nobre e generosa alma. Trai-me de minha própria simpatia toda a suspeição para dizer dela. Prendia-me a Euclides Filho a mais estreita consangüinidade, acrescida de uma amizade, outrora tão viva, agora quase bruxuleante, mercê do destino tão diverso que cada um de nós veio a tomar,e que afinal voltaria a se intensificar se não fora a bala traiçoeira, que, para Euclides foi a última homenagem para o seu heroísmo.
Euclides Filho – o Quidinho, seu apelido de família – foi pó meu primeiro companheiro de infância,aliás, como fora também o seu não menos infeliz Sólon. Foi o primeiro a quem, nessa quadra tão descuidada da vida, conferi minhas primeiras impressões de criança. É justo, pois, é imperioso que eu não seja dos últimos a lhe trazerem o modesto tributo de saudade à sua memória, agora tão cara a todos os que têm coração.
Do trágico estendal de misérias e sofrimentos,que foram, sete anos, o martirológio desse rapaz e do seu desfecho clamoroso,houve uma virtude extraordinária, a emergir do lodaçal como um clarão impressionante – foi a grandeza moral da figura de Euclides. A sua integridade é perfeita no justo equilíbrio de todas as faculdades: inteligente, audacioso, valente, afetivo, bom filho, bom irmão, bom amigo.
Que mais é necessário para brilhar uma individualidade ou revelar um caráter.
Suas últimas cartas escritas já nas tortura definante da dor, são tantos retalhos da alma, que ele deixou despedaçada pelo infortúnio. São documentos comovedores de sua enfibradura precoce.
Era militar. Que energia imensa não estaria ali represada para o serviço da pátria! O destino implacável,entretanto, preferiu conduzi-lo em olocausto de um nome, de uma memória, que afinal é ainda alguma coisa da pátria.
Os que morrem cedo, dizem as lendas, são queridos dos deuses. Euclides Filho deve ser duplamente caro à divindade – pela sua mocidade e pelo seu coração.
S.Paulo,11-7-916. Oleno Vieira (..)”
SOBRE OCTAVIANO DA CUNHA VIEIRA
“(..) Filho legítimo do comendador Inácio Mariano da Costa Vieira e da exma d. Benedita Cândida da Costa Vieira, já falecidos, o dr Octaviano da Costa Vieira, nasceu na cidade de Taubaté, E.de S.Paulo aos 14 de maio de 1866 [mesmo ano de Euclides da Cunha] Estudou preparatório do ‘Colégio S. João Evangelista’, em sua terra natal. Em março de 1886,matriculou-se na Faculdade de Direito de S. Paulo.
Após um curso brilhante formou-se e recebeu o grau de bacharel em ciências jurídicas e sociais, em 4 de Dezembro de 1890.
Foi companheiro de turma, é amigo íntimo do exmo sr Wenceslau Braz, atual presidente da república; do dr Candido de Almeida, atual secretário da fazenda; do dr Alfredo Pujol e do dr Delfim Moreira, atual presidente de Minas.
A30 de setembro de 1891, em Belém do Descalvado, contraiu matrimônio coma exma sra d. Adélia da Cunha Vieira, de cujo consórcio houve três filhos: Oleno Vieira, Walinda e Carlos Viera.
Advogou na capital do Estado até 1892, data em que foi nomeado Juiz Municipal do Belém de Descalvado. Advogou também no Espírito Santo do Pinhal, de onde se transferiu para Limeira. Nessa cidade dirigiu o ‘Correio de Limeira’, órgão do partido republicano, fazendo a campanha a favor do governo por ocasião da revolta de 6 de Setembro,da armada Custódio e Saldanha.
Em Limeira, residiu e advogou até 15 de Novembro de 1894, data em que entrou para a magistratura paulista, indo, após concurso, como juiz de direito da comarca de Santa Cruz das Palmeiras, nova e recentemente criada, sendo por ele instalada em 15 de novembro de 1894.
Foi, depois, removido para a comarca de Araraquara; desta para a de Jundiaí em 23 de junho de 1896, e de Jundiaí para S. José dos Campos, e, finalmente para a comarca de S. Carlos, onde tomou posse no dia 6 de Junho de 1901, por decreto de 22 de Maio de 1901 (..) Profundo conhecedor do direito e escritor de elevado mérito, tem publicado obras de inestimável valor, dentre as quais: ‘Fiança criminal’, ‘Os menores perante o código penal’ e ‘Casos forenses’, obra esta que foi elogiada pelo insigne jurisconsulto Clóvis Bevilacqua.
Durante o longo período de sua residência em S. Carlos, conquistou a estima e respeito de todos os habitantes desta cidade (..)”. (Correio de São Carlos, 15/10/1916)