Dia deste, final de tarde, hora de maior movimento de retorno para casa, o tempo muda rapidamente, a chuva cai com força empurrada por rajadas de vento forte. Várias pessoas que aguardavam os ônibus tentam se proteger, sem sucesso, sob a pequena marquise do ponto de ônibus do centro da cidade. Alguns correm no meio da chuva para a loja e o bar do outro lado da rua.Um homem, de meia idade,acompanhado de um menino de uns cinco anos, primeiro coloca a criança em cima do banco tentando protegê-la, depois sentindo que não dava, como as demais pessoas, atravessou a rua correndo, levando a criança nos braços. Minutos depois, ainda chovia forte, chega o ônibus da linha Domingos de Syllos – Vale do Redentor, alguns correm para pegá-lo. O ônibus desce a João Gabriel Ribeiro, ao chegar à rodoviária, novo corre-corre, jovens e velhos, que se protegiam da chuva na marquise da Rodoviária, atravessam a rua correndo para não perder o ônibus.
A inadequação dos pontos de ônibus da zona central da cidade é tão visível que até surpreende nenhuma atitude ser tomada. Todo mundo se preocupa e comenta, com razão, a falta de opção viária nas principais ruas da cidade. Mas quase nada se fala das péssimas condições dos principais pontos de ônibus.
No ponto do hospital, onde muitas vezes pessoas doentes esperam condução, não há nenhum tipo de proteção contra sol e a chuva; na estação rodoviária, um dos pontos de maior movimento, o mesmo problema: não há proteção. Como já foi dito, as pessoas usam a marquise da estação para se proteger do sol e da chuva, com uma agravante: em razão da má freqüência no local, os usuários dos ônibus, mulheres principalmente, são importunados; Quanto ao ponto central dos ônibus, no principal cruzamento da cidade, a coisa e mais feia ainda. Se há carros demais no centro, o que dizer então dos usuários dos ônibus.
São centenas de pessoas de todas as idades e profissões a freqüentar o local. Observando a certa distancia, da calçada do Bradesco por exemplo, pode se vislumbrar com nitidez quanto é inadequado o principal ponto de embarque e desembarque de passageiros.
É uma pequena ilha em forma de triângulo exprimido por três ruas, com uma pequena marquise e duas frondosas sibipirunas. Sob a marquise e as árvores existem alguns bancos mal conservados. Neles, em horário de maior movimento, acotovelam-se: idosos, não raro grávidas e deficientes, homens, mulheres e crianças. O local é sujo e as árvores que possibilitam uma boa sombra, guardam também, uma armadilha.
É muita gente concentrada e alguns pela demora, ou por fome mesmo, comem bolachas, salgados, biscoitos. Ao fazê-lo, deixam cair pedaços ou migalhas dos alimentos que atraem os pombos da praça. Os pombos são fatores novos no ponto e usam os galhos (onde descansam) das duas árvores como apoio para descer ao chão. Conseqüência: os usuários dos bancos, a qualquer momento, podem ser surpreendidos por dejetos vindos do alto. Há que se considerar, ainda, a falta de espaço para descer e subir nos ônibus. E mais,pela sua localização; é um péssimo cartão de visita da cidade.
A última eleição é prova inconteste que o povo queria mudanças. Pergunta-se:? Elas acontecem? Andando pela cidade pouco se percebe. Tirando a praça 15, cuja reforma já estava prevista; no mais, o trânsito continua caótico, sem perspectiva de curto prazo; os paralelepípedos, herdados da administração anterior,continuam se desprendendo e criando verdadeiras armadilhas para os veículos e seus condutores; o sistema de transporte, o ir e vir da população diariamente,continua a desejar e pior, sem dar informação ao pobre do usuário.
Nem a forma de governar mudou. Querem um exemplo simples e objetivo de dois pesos e duas medidas.: o carnaval. Foram os romanos, na antiguidade, os primeiros a afirmarem que ao povo basta pão e circo. A Roma dos Césares, com seu Coliseu, é exemplo típico desta prática. Os governantes de hoje continuam usando deste artifício.
Enquanto não há nenhum planejamento (se há, não é público) para ajudar o povo a se locomover com mais dignidade, o carnaval já estava planejado há muito tempo. Com semanas de antecedência, cartazes e outdoors já estavam espalhados pela cidade detalhando o evento. O local - pelo menos deixou a Perimetral causando menos transtorno, principalmente para caminhões e carreta que por lá circulam diariamente – foi preparado com bastante antecedência.
Vamos deixar claro que ninguém é contra o carnaval, uma festa popular e tradicional. O que se estranha, e não é de hoje, é a postura de quem manda.Em festas populares, ou quando patrocinam grandes eventos, nunca, por parte das autoridades, fala-se em falta de verba, enquanto para serviços essências, como os pontos de ônibus por exemplo, a justificativa da falta ou do aguardo de liberação de verba, é constante.
Se perguntar às autoridades sobre esta prática de dar ao prazer tudo e a necessidade quase nada, elas provavelmente dirão ser o que o povo quer. Será? O circo, em suas várias facetas, ainda é divertimento; já o pão de hoje não é só o alimento, é muito mais: é a casa própria, o transporte, o emprego, a educação, a segurança. Uma última questão: prioridade por prioridade, pergunta-se: numa cidade com mais de cinqüenta mil habitantes, quantos irão ao carnaval e quanto deixarão de faze-lo?