São José do Rio Pardo, quarta-feira, 8 de setembro de 2010
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A história de um profeta.
..
dr. Luiz Fernando Panico (*)
 

                             

 

          Como vai, Faísca?

 - Vai se levando a vida como Deus quer, doutor. O senhor tem levantado bem cedinho para dar suas caminhadas.

           - Os hábitos sadios fazem com que os idosos passem a ter disposição para enfrentar as contrariedades que insistem em nos incomodar com o passar dos anos.

           - É por isso que os pobres agüentam tanta desgraça?

           - Pode ser; a tranqüilidade do amanhecer leva a maioria das pessoas a darem asas a sua imaginação, o que tende a convergirem para o amanhã de esperança.

           - Mas com tantas “chuvas” nas costas não há pobre de que consiga encontrar o caminho certo.  Depois de ouvir palavras tão bonitas, eu peço desculpas por ficar chateando o doutor com queixas.

           - As palavras, por mais belas que sejam, nem sempre exprimem a realidade.

           - O senhor levantou inspirado.

           - Não enfeite o pavão Faísca. Desembucha o que tem a me dizer.

           - O Brasil tem chance de ganhar medalha de ouro na Olimpíada?

           - No esporte, assim como na vida, precisamos estar preparados para as conquistas.

           Ao mostrar a cabeça de um cavalo na primeira página de um jornal, ele disse, com enorme prazer:

           - Nesse eu levo fé.

           Naquele momento, “Pingüim” se aproxima com seu andar dez para duas soltando uma sonora gargalhada. Sem entender a razão da sua postura, perguntei:

           - O que leva o amigo estar tão feliz?

           - O cavalo que ele está mostrando é patrocinado pelo time dele. Esta camisa é pesada demais, doutor. Com certeza o cavalo não terá forças para pular os obstáculos.

           Ao perceber que a discussão tenderia a se prolongar, sem querer, acabei pondo mais lenha na fogueira ao me despedir:

           - Amanhã saberemos com quem está a razão.

           Caminhando pela praça, percebi que não eram poucas pessoas que comentavam o fraco desempenho de nossos atletas, mas o que me chamou à atenção foi diálogo de duas senhoras que demonstravam esperança no conjunto, cavalo e cavaleiro, que iria representar o Brasil. Estava consciente que a medalha de ouro não seria apenas o desejo de um jovem cavaleiro e seu vistoso cavalo, mas uma obsessão de um povo para ter o seu representante no pódio mais alto dessa singular competição.

           Mais tarde, depois de um dia agitado, passei conviver com o pôr do sol. A tonalidade do céu tornava-se azul escura e as estrelas, com seu piscar, davam as primeiras pinceladas naquele quadro de beleza singular. Na solidão da noite, com as sobrancelhas pesadas e os bocejos freqüentes, comecei a imaginar em algo que transcendia a imaginação humana estaria para acontecer. Seria o prenuncio de que a minha alma estaria prestes a viajar num mundo desconhecido, deixando o meu corpo na solidão da noite a repousar.

        Na manhã do dia seguinte, após o café, ao passar pela portaria, percebi que o Faísca não vivia um bom momento. Diante daquele quadro, só me restou lhe cumprimentar, de uma maneira formal:

           - Como passou a noite, amigo?

           - Com muita dor de cabeça.

           - Aconteceu algo desagradável?

           Com ar de debochado, Pingüim entrou na conversa:

           - Ele vai ficar um bom tempo sem dormir, doutor. O cavalo tropeçou.

           Desejando que o diálogo transcorresse sem atritos, fiz um sinal para que o Pingüim compreendesse a situação do seu colega, assim eu poderia ouvir, sem ser interrompido, o que Faisca tinha a dizer. Após confirmar que o cavalo que ele levava tanta fé tinha tropeçado, Pingüim sussurrou ao meu ouvido:

           - Não duvido que o time que dele desça para segunda divisão.

           Com o tempo fui percebendo que àquela discussão já não tinha a intensidade dos primeiros dias, e o diálogo entre os dois tornou-se agradável.

           Certa manhã, quando descia para fazer a caminhada, observei que o Pingüim um tanto retraído. Então fiquei a imaginar o que poderia ter acontecido com quem convivia com o prazer da vida... Ao cumprimentá-lo, insinuei que estava ali para ouvi-lo.

          - Doutor, eu deixarei de vê-lo passar pela portaria todas as manhãs.

          - O que houve com o amigo?

          - A partir de amanhã serei mais um aposentado. Quem sabe me tornarei um privilegiado a mais a respirar o ar puro das montanhas. Em breve cruzaremos nossos caminhos, disse ele, ao se despedir.

         Com o passar dos anos, a nova profecia do Piguim iria se concretizar, o time do Faísca cairia para a segunda divisão.

         Era véspera de Natal, acompanhado de um colega fui a Praça Saens Pena para comprar presentes para a família. Quando entrava numa loja, deparei com o Pingüim. Entre gostosas risadas ele me abraçou afetuosamente e contou as facetas da sua nova vida. Depois de uma conversa agradável, ele se despediu e eu fiquei a observar o seu caminhar lento, porém seguro. Enquanto convivia com as recordações, fui surpreendido por uma pergunta do meu colega:

          - Panico, qual é mesmo o nome do seu amigo?

        - O profeta.

         Logo em seguida, ele se despediu com uma expressão de quem estaria levando uma dúvida para casa, e desde então uma certeza fazia parte do meu cotidiano: um dia eu iria lhe contar a história de um profeta.  

 

(*) ginecologista e ob stetra