São José do Rio Pardo, domingo, 5 de setembro de 2010
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Há um lugar vazio no banco da praça
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João Carlos Possendoro
 

                          

                                                                      “Ao Zé Feixinho, um Homem simples e  o  mesmo tempo de muitas qualidades   que viveu seu tempo com dignidade”

    

     A praça é um lugar público. É também um local essencial e de multiplicas facetas.        Em todas as cidades, sejam elas grandes ou pequenas, tem praça. Quando há um evento significativo ou festivo, seja ele político, religioso ou musical, é lá que se tem a primeira idéia da realização. Nos fins de semanas de antigamente, antes do surgimento da televisão, o povo se reunia na praça.  Famílias se encontravam na praça, enquanto os adultos conversavam, as crianças brincavam. Lá era o local predileto para se namorar.  Reza a tradição, que as praças mais antigas tinham que ter, necessariamente, uma igreja e um coreto onde a banda (era uma espécie de lei) se apresentava nas noites dos domingos. Sempre depois da missa.

     Uma série de fatores do mundo moderno, o avanço dos meios de comunicação associado à corrida econômica, em razão da valorização do dinheiro, fez com que a nossa tradicional praça ficasse um longo tempo esquecida, parecendo peça de museu.

     O surgimento de um componente novo na atual conjuntura sócio-econômica, de forma indireta, revitalizou este importante componente da paisagem urbana, dando-lhe vida nova. A saída do idoso de casa, o seu ir e vir mais participativo encontrou na praça um ponto de apoio.

     Em São José, como não poderia deixar de ser, há muitas praças. Cada uma tem sua peculiaridade. A maior delas fica no Vale do Redentor e tem grande movimento. Durante a semana, idosos ali se reúnem sob as árvores, conversam e tem no truco um ponto de convergência. As pipas, em tempo de férias, ganham o céu. Nos finais de semanas o jogo de malha mistura homens de várias idades.

     Oliveiro Pinheiros é nome de praça, mas pouca gente sabe. Ela é mais conhecida como Epidauro. Se o nome fosse praça dos estudantes também não estaria errado. Em razão da proximidade de duas faculdades e uma escola estadual, é nela que os estudantes  reúnem-se para bater papo e também namorar.

     Porém, entre todas as praças da cidade, o maior destaque é a Praça da Matriz. Na realidade é uma praça só, dividida em duas. É o marco zero da cidade e como toda praça que se preza tem igreja e tem coreto.  Em razão de sua proximidade com o grande comércio, da concentração bancaria, do ponto de ônibus urbano e de suas árvores, algumas centenárias, que oferecem boas sombras, muita gente passa por ela. É um ir e vir constante. Os mais ocupados passam rapidamente.  Mas há aqueles que, de um jeito ou de outro, cumpriram sua jornada trabalhista e assim, fazem do local ponto de encontro semanal. Por ser uma praça antiga guarda muitas historias: alegres, tristes, hilárias ou curiosas.

      Pela sua grandeza, a “Quinze” é extensão da Vicente Dias e vice versa, quase que naturalmente, grupos se formam em pontos pré-determinados. Não faz muito tempo, um grupo de homens conversava (alguns sentados, outros em pé), quando um deles virou para dois outros e disse: “o lugar de vocês não é aqui”. Um dos dois homens, incomodado, perguntou do por que daquela afirmação. Vocês dois pertencem ao grupo de aposentados que ficam nos bancos em frente à Nossa Caixa. Antes que o outro retrucasse, emendou: “aqui, nos bancos próximos ao ponto de ônibus, ficam os trabalhadores pobres; os bancos de vocês são o dos ricos: professores e funcionários públicos; mais lá no meio da praça (a Quinze) ficam os mais ricos: os aposentados do banco do Brasil e do antigo Banespa”.

      Pois é, nesta praça de muitas historias, onde existe até divisão de classe social, um personagem tinha um destaque todo especial: José Benedito Feijó, mais conhecido como Feixinho. Um homem de muitos ofícios e que gozou a vida como poucos.

      Desde quarta feira, dia 30 há um lugar vazio no banco da praça. O simpático e querido Zé Feixinho, um homem simples, de fala macia e de muita sabedoria se foi. Freqüentador da praça há muitos anos, gostava de uma boa prosa. Sabia que pelo menos o Virso (freqüentador assíduo) lá estaria esperando por ele para conversar.

     O Zé era um homem vivido. Tinha muitas habilidades. Uma delas, a de ser um bom contador de histórias. Ao tomar conhecimento que alguém dividiu os bancos pelas profissões exercidas, achou graça, riu e disse: “então como fico eu que não sou professor e nem funcionário público. Se for assim, estou fora de lugar”.

     Porém, muito antes de sentar no banco para relembrar, o Zé fez a sua história. Começou profissionalmente como mecânico na oficina do Bincoletto; foi vendedor viajante (por trinta anos) de calçados e couro, o que lhe deu a possibilidade de conhecer muita gente.  Foi jogador de futebol, quem o viu jogar diz que ele era dos bons. Jogou nos principais clubes da cidade: Associação Rio-Pardense, Rio Pardo e Vasco. Foi instrutor de tênis, iniciou muita gente na arte da bola pequena, tanto na Associação como no Rio Pardo.

A música era um capitulo especial em sua vida. Conheceu pessoalmente o sambista Ciro Monteiro. Participou de um conjunto musical junto com músicos da cidade. Tinha um grande conhecimento da música do seu tempo. A idade não era empecilho para cantarolar músicas, relembrá-las então! Quanta facilidade!

      A maior homenagem que se pode fazer a um amigo das qualidades do Zé Feixinho, um amante da boa música, é adaptar o verso de Sergio Bittencourt na música “Naquela Mesa”, feita para homenagear seu pai Jacó do Bandolim.

 

      “Naquele banco está faltando ele

     e a ausência dele

     está refletindo em nós”.